rasgo o mar por entre os sonhos
buscando talvez a razão de procurar
aquilo que só há no não existir
e encontrar
venço a fúria de querer ter o que não há
desfazendo a inércia de não ser luz
como quem crê no infinito
e em o olhar
mas no final do tempo há um relógio que desperta
- o mundo recomeçou
O nosso Universo é pequeno demais e a velocidade da luz não chega. Aqui, o céu não é o limite, mas sim o ponto de partida para um (multi-)Universo que se quer sem preconceitos, leis chatas ou um destino do qual não se pode fugir.
terça-feira, 26 de abril de 2005
quinta-feira, 21 de abril de 2005
segunda-feira, 28 de março de 2005
olhar
se mergulhasses na verdadeira constituição do meu olhar
não descobririas células e tudo seria diferente
por não existir uma única molécula átomo electrão.
é que o meu olhar é como o teu e é como o de todos
não se move a adenosina trifosfato
e não procura pontos de interesse biológico
o meu olhar e o teu olhar são feitos de nuvens e de mares
e de céus e de esperanças
qualquer coisa entre uma entrada para alma
e uma forma de saída da escuridão.
não descobririas células e tudo seria diferente
por não existir uma única molécula átomo electrão.
é que o meu olhar é como o teu e é como o de todos
não se move a adenosina trifosfato
e não procura pontos de interesse biológico
o meu olhar e o teu olhar são feitos de nuvens e de mares
e de céus e de esperanças
qualquer coisa entre uma entrada para alma
e uma forma de saída da escuridão.
sexta-feira, 25 de março de 2005
Vector Rebelde
subi ao céu nas asas de um vector rebelde
com a fome de quem devora todo um teorema
em busca de solução,
com a ânsia de quem percorre o mundo inteiro
num instante
e com a pressa de chegar
mais rápido do que o próprio tempo.
ousei provar cada pedaço do que nos faz ser e não ser
cada interrogação sem resposta
cada brisa de arrepio por sentir.
estendi meus braços sobre tudo o que há
em equações de campo que não falham
e não sentem
e escrevi poesia a dez dimensões
como quem pensa no teu olhar
num tempo zero e infinito.
com a fome de quem devora todo um teorema
em busca de solução,
com a ânsia de quem percorre o mundo inteiro
num instante
e com a pressa de chegar
mais rápido do que o próprio tempo.
ousei provar cada pedaço do que nos faz ser e não ser
cada interrogação sem resposta
cada brisa de arrepio por sentir.
estendi meus braços sobre tudo o que há
em equações de campo que não falham
e não sentem
e escrevi poesia a dez dimensões
como quem pensa no teu olhar
num tempo zero e infinito.
quarta-feira, 23 de março de 2005
Jeshoa
Não sei se alguma vez fui divino. Porque para ser divino é preciso que muitos não o sejam e isso seria de todo injusto, algo completamente antagónico à revolução de igualdade com que sempre sonhei. E, ainda que não seja minha intenção contrariar todos aqueles que me veneram como um deus, sinto-me obrigado a dizer-lhes que se assim é, então deveriam ajoelhar-se perante todo e qualquer homem, porque nada mais sou do que um deles.
Gostava de poder olhar para trás e ver a minha mensagem a gerar sorrisos, de ouvir o meu nome pronunciado como um exemplo e não como a imponência, e que se recordassem de mim pela pessoa que fui – e não pela magia que o mundo me atribuiu.
Não fui eu que vos ensinei a rezar, nem tão pouco fui eu que vos motivei a construir edifícios enormes em meu nome. Vim para que fossem mais homens, para devolver a humanidade à humanidade, para despertar os corações dos dogmas cruéis, e nunca para que criassem novas leis e novas sociedades do poder.
A minha mensagem sempre foi a do amor, e jamais (em tempo algum) poderei benzer o sofrimento, seja pelo que for. Porque o maior pecado é negarmos tudo aquilo que somos, receando o castigo divino. Principalmente por tal não existir. Deus não castiga nem recompensa, porque nenhuma razão tem para o fazer. A vida foi-nos dada – é de cada um de nós – e cabe a cada qual, enquanto indivíduo, escolher o seu caminho, com a certeza de que o bem e o mal não passam de dogmas que continuam a afastar o Homem dele mesmo.
Na verdade, creio que quase ninguém compreendeu realmente a minha mensagem Principalmente porque por vezes sinto que se hoje de novo nascesse, mais uma vez a história se repetiria. E seriam aqueles que hoje elevam o meu nome aos céus os primeiros a censurar-me a palavra. Porque eu sou a mudança e a revolução. Porque eu sou a luz que o escuro teme.
E agora, neste instante sem tempo, tantos anos depois, continuo a olhar o Universo inteiro em mim e sei que um dia as pessoas acreditarão em si mesmas, e então compreenderão que Deus existe, sim, mas apenas dentro de si mesmas…
Gostava de poder olhar para trás e ver a minha mensagem a gerar sorrisos, de ouvir o meu nome pronunciado como um exemplo e não como a imponência, e que se recordassem de mim pela pessoa que fui – e não pela magia que o mundo me atribuiu.
Não fui eu que vos ensinei a rezar, nem tão pouco fui eu que vos motivei a construir edifícios enormes em meu nome. Vim para que fossem mais homens, para devolver a humanidade à humanidade, para despertar os corações dos dogmas cruéis, e nunca para que criassem novas leis e novas sociedades do poder.
A minha mensagem sempre foi a do amor, e jamais (em tempo algum) poderei benzer o sofrimento, seja pelo que for. Porque o maior pecado é negarmos tudo aquilo que somos, receando o castigo divino. Principalmente por tal não existir. Deus não castiga nem recompensa, porque nenhuma razão tem para o fazer. A vida foi-nos dada – é de cada um de nós – e cabe a cada qual, enquanto indivíduo, escolher o seu caminho, com a certeza de que o bem e o mal não passam de dogmas que continuam a afastar o Homem dele mesmo.
Na verdade, creio que quase ninguém compreendeu realmente a minha mensagem Principalmente porque por vezes sinto que se hoje de novo nascesse, mais uma vez a história se repetiria. E seriam aqueles que hoje elevam o meu nome aos céus os primeiros a censurar-me a palavra. Porque eu sou a mudança e a revolução. Porque eu sou a luz que o escuro teme.
E agora, neste instante sem tempo, tantos anos depois, continuo a olhar o Universo inteiro em mim e sei que um dia as pessoas acreditarão em si mesmas, e então compreenderão que Deus existe, sim, mas apenas dentro de si mesmas…
sábado, 19 de fevereiro de 2005
Caos de Haver Big Bang
Sou a energia a explodir por todo o espaço, o tempo a correr quase estanque, a matéria que é ainda nada. Sou a explosão de criar mundos: um fogo que arde mais que chamas, no qual ondula já a morte, o horizonte, as leis.
Partículas feitas de luz e caos de haver positrões e electrões, aniquilando-se rodopiando, afastando-se no espaço que a inflação expande como por magia, e tornando-se reais como por obra divina. E eu a consciência de haver caos e ordem e energia aqui e sempre. Por isso o gás que é o Universo, o mar de fotões de mim gerado, frenético, ondulado, desviando-se para o vermelho sem saber que esse é o cheiro da morte, sem saber que tudo ondula já para o fim – ainda que agora seja só o início e sempre haja um instante por vir. E há o caos de haver matéria e antimatéria, ainda aniquilando-se inconscientes dos dois mundos que nunca mais serão um mesmo. E o caos de haver colisões e colisões, choques em cadeia e sem razão, e um espaço totalmente opaco, plasma de confusão e indústria, metrópole de fotões de início dos tempos, trânsito de ruídos que ainda não se ouvem mas se sentem, como o frio que vai caindo sobre tudo, instantâneo, sem aviso, rodopiando no princípio do fim, ou no início do princípio.
O Mundo nasceu.
Partículas feitas de luz e caos de haver positrões e electrões, aniquilando-se rodopiando, afastando-se no espaço que a inflação expande como por magia, e tornando-se reais como por obra divina. E eu a consciência de haver caos e ordem e energia aqui e sempre. Por isso o gás que é o Universo, o mar de fotões de mim gerado, frenético, ondulado, desviando-se para o vermelho sem saber que esse é o cheiro da morte, sem saber que tudo ondula já para o fim – ainda que agora seja só o início e sempre haja um instante por vir. E há o caos de haver matéria e antimatéria, ainda aniquilando-se inconscientes dos dois mundos que nunca mais serão um mesmo. E o caos de haver colisões e colisões, choques em cadeia e sem razão, e um espaço totalmente opaco, plasma de confusão e indústria, metrópole de fotões de início dos tempos, trânsito de ruídos que ainda não se ouvem mas se sentem, como o frio que vai caindo sobre tudo, instantâneo, sem aviso, rodopiando no princípio do fim, ou no início do princípio.
O Mundo nasceu.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005
Vim de tão longe e já daqui da explosão do espaço e do tempo primordial
Sou a energia que resta de haver algo. Pedaço esquecido de haver um princípio sem fim, lembrança de uma explosão que o próprio tempo já não sabe. E viajo apenas. Sem parar. Sem nunca poder travar ou acelerar. Sempre, sempre, sempre, frenético, constante, força nula, derivada zero!
E à minha volta o espaço a distorcer-se e eu com medo de nada ser, vendo tudo o resto a ter massa infinita. Por isso não olho mais: sigo apenas, vazio em mim.
Perdi os anos no rasto que não deixo. Por isso o tempo para mim é só espaço, distância que haverá sempre a percorrer, expansão de nunca terminar. O tempo é um horizonte que não existe mas que ordena, um pedaço sem corpo que governa.
E viajo, sem parar, carregando em mim o fascínio da criação, ainda que cada vez mais ténue. Mas recordo ainda que um dia fui gama e raio x, e fui esperança de poder ser carne e osso e morrer, crença de sentir e poder travar. Tanto tempo e ainda hoje. Quando foi o tempo passado, se o foi?
Depois a expansão e eu vermelho, mais vermelho, mais vermelho! E eu a ser distendido, ultravioleta e azul, laranja e vermelho e infravermelho, rádio e microonda! Expansão cruel! Hoje sou menos de nada. Viajando apenas pela escuridão da noite que nunca acaba. Espécie destinada a percorrer o infinito, esperando que um dia tudo se gaste e me torne ainda mais nada que nada, no vazio de mim e do Universo que vi criar.
Sou a memória de ter havido início, energia de haver um fim que ainda está para vir. Sou a luz que já não se vê, pedaço de um mar que ondula esquecido sem se poder ver. E será que existo?
E à minha volta o espaço a distorcer-se e eu com medo de nada ser, vendo tudo o resto a ter massa infinita. Por isso não olho mais: sigo apenas, vazio em mim.
Perdi os anos no rasto que não deixo. Por isso o tempo para mim é só espaço, distância que haverá sempre a percorrer, expansão de nunca terminar. O tempo é um horizonte que não existe mas que ordena, um pedaço sem corpo que governa.
E viajo, sem parar, carregando em mim o fascínio da criação, ainda que cada vez mais ténue. Mas recordo ainda que um dia fui gama e raio x, e fui esperança de poder ser carne e osso e morrer, crença de sentir e poder travar. Tanto tempo e ainda hoje. Quando foi o tempo passado, se o foi?
Depois a expansão e eu vermelho, mais vermelho, mais vermelho! E eu a ser distendido, ultravioleta e azul, laranja e vermelho e infravermelho, rádio e microonda! Expansão cruel! Hoje sou menos de nada. Viajando apenas pela escuridão da noite que nunca acaba. Espécie destinada a percorrer o infinito, esperando que um dia tudo se gaste e me torne ainda mais nada que nada, no vazio de mim e do Universo que vi criar.
Sou a memória de ter havido início, energia de haver um fim que ainda está para vir. Sou a luz que já não se vê, pedaço de um mar que ondula esquecido sem se poder ver. E será que existo?
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005
quinta-feira, 27 de janeiro de 2005
Stress a Potes
estou stressadamente farto de todas estas correrias a que me submeto a mim mesmo sem sequer saber por que razão o faço, corro e corro e ainda assim perco tantos autocarros e quando chego ao metro as portas fecham-se quando estou mesmo a entrar e quase começo aos pontapés a tudo e a todos antes de voltar para trás a correr e apanhar o eléctrico que como todos os dias parte atrasado, e assim chego sempre a correr e sempre atrasado ao emprego que me stressa e me deixa num estado de nervos incrivelmente indescritível, e é preciso correr de gabinete para gabinete porque estas secretárias de hoje em dia são um stress e não fazem nada como deve de ser, e quando dou por mim já estou a correr para ir almoçar e quando lá chego a fila dá-me volta aos nervos e decido ir a outro restaurante que me faz enervar durante mais 15 minutos até decidir voltar para o trabalho porque já estou mais de 5 minutos atrasado, e depois há papeis e papeis para assinar que nunca mais acabam e o som dos ponteiros a contar um tempo que se apressa e que acelera quando acelero, e que acelera quando desacelero, e que acelera ainda mais quando o tempo passa e há ainda tanto que fazer, e depois a noite cai e eu sozinho no escritório, ainda a correr de gabinete em gabinete, já tropeçando nos meus próprios nervos que me fazem envelhecer ao ritmo da minha pressa, e depois é tempo de voltar para casa e já estou outra vez atrasado e agora já o eléctrico não parte fora de horas e por isso o perco e tenho que ir a correr apanhar o metro que já lá não está e me força a correr para trás e apanhar um autocarro cheio de gente que bate o pé e chama nomes ao motorista por ele não passar por cima de todo o trânsito e fazer com que todos cheguemos atrasados ao barco que já partiu e nos faz correr para apanhar o comboio e nos faz vibrar e tremer de tanto stress acumulado ao fim do dia, e depois apanhar o último autocarro que (raios!) parte novamente atrasado e depois apanha uma fila de trânsito interminável, e quando chego a casa é o jantar que não está feito e as horas a passarem e depois o telefone a tocar e o stress de quando lá chego não ser ninguém, e depois de jantar é quase já manhã e tenho que correr para o banho e para o quarto vestir-me e ainda assim perco o autocarro para o trabalho e um novo dia começa sem tempo para que o anterior termine e assim se faz a mais bela fórmula do nosso mundo que vive na pressa de não ter tempo sequer para viver. irra, que stress!
quarta-feira, 19 de janeiro de 2005
Vento
O vento foi sempre o meu melhor amigo. Sempre que algo me atormentava, havia sempre a frescura do seu sopro nos meus cabelos, na minha pele, na minha mente. E a sua frescura parecia expulsar todas as mágoas – mesmo as mais resistentes. Até que um dia o vento se calou.
sábado, 25 de dezembro de 2004
Natal é saber o que é Natal e não precisar de o celebrar
Natal é este mar de entropia a aumentar porque há algo que nos liga e aquece. Natal é dar-te a mão e darmos todos as mãos. Mesmo que saibamos que não podemos tocar nada, porque há sempre um vazio, por mais pequeno que seja, entre nós e o mundo.
Natal é poder sentir tudo, mesmo aquilo que não existe e não é possível, mesmo o que dizem ser mentira. Natal é gerar energia por tudo o que somos e libertá-la no gelo da noite, quando a estrela guia os reis que ainda caminham perdidos.
Natal é haver esperança no horizonte, mesmo quando não há horizonte e o ar nos gela os sentidos. Natal é sermos o mundo inteiro.
Natal é saber o que é Natal e não precisar de o celebrar.
Natal é poder sentir tudo, mesmo aquilo que não existe e não é possível, mesmo o que dizem ser mentira. Natal é gerar energia por tudo o que somos e libertá-la no gelo da noite, quando a estrela guia os reis que ainda caminham perdidos.
Natal é haver esperança no horizonte, mesmo quando não há horizonte e o ar nos gela os sentidos. Natal é sermos o mundo inteiro.
Natal é saber o que é Natal e não precisar de o celebrar.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2004
Madrugada
São 4 da manhã 5 da manhã e o relógio tic-tac-tic-tac sem parar como se a sua vida tivesse origem numa infinidade de algo que desconheço talvez por me transcender. Estou desperto e nem sei bem porquê. Os olhos simplesmente não obedecem ao hipotálamo e não cedem aos tecidos musculares esqueléticos e lisos. Estou talvez só, em frente à brancura do papel em mim mesmo e escrevo. Escrevo como um alucinado. Álvaro de Campos e Miguel Torga e Vergílio Ferreira e muitos mais, numa só voz, à Lobo Antunes. Loucos? Que se lixe a loucura. A esta hora da madrugada não há loucura nem razão: o que importa é saber gritar que se está vivo.
domingo, 28 de novembro de 2004
Só um corpo
Um dia havia toda uma vida a correr por mim por fora por dentro, havia um sol, uma lua, um céu sempre a azular, um fogo que ardia longe no horizonte, até um sorriso a ondular os campos. Um dia havia eu e o que havia de mim num corpo, numa existência talvez, andando por algo a que chamava realidade, que de facto podia muito bem nem ser real. Um dia o fogo apagou-se e o céu caiu. Um dia o sol desligou-se e a luz escureceu. Um dia houve um desaparecimento de sorrisos, e deixei de haver eu em mim.
Por isso, um dia, ficou só um corpo, numa inexistência qualquer.
Por isso, um dia, ficou só um corpo, numa inexistência qualquer.
sábado, 27 de novembro de 2004
Criar é Humano
É absolutamente fantástico o que um pouco de imaginação é capaz de produzir. E é tão fácil deixar que ela flua ao seu próprio ritmo para nem sequer necessitarmos se nos preocupar.
Já o disse, contudo não hesito em repetir que é a nossa parte criativa que vale ainda mais que tudo em nós e que só criando é possível apercebermo-nos tanto da nossa essência, como da vida que a precede e a possibilita.
Por tudo isto é indiscutível, pelo menos para mim, que se somos alguma coisa maior do que nada, à escala universal, é porque possuímos essa extraordinária capacidade de imaginarmos e criarmos infinitas possibilidades de concepções e realizações.
Criámos Deus à nossa imagem, porque o fizemos Criador.
Já o disse, contudo não hesito em repetir que é a nossa parte criativa que vale ainda mais que tudo em nós e que só criando é possível apercebermo-nos tanto da nossa essência, como da vida que a precede e a possibilita.
Por tudo isto é indiscutível, pelo menos para mim, que se somos alguma coisa maior do que nada, à escala universal, é porque possuímos essa extraordinária capacidade de imaginarmos e criarmos infinitas possibilidades de concepções e realizações.
Criámos Deus à nossa imagem, porque o fizemos Criador.
sexta-feira, 19 de novembro de 2004
O Caminho Pelas Ruas
Caminho pelas ruas da cidade e olho as multidões, imunes a qualquer força que lhes altere o estado cinético, devido à sua inércia quase infinita. Mas ainda assim adivinho-lhes os sonhos – aquelas estranhas coisas que se esforçam por não dar importância – e sinto-lhes a vida. Sinto-lhes o bater de algo muito mais além do que o próprio coração. Não que seja muito maior, mas por não ser necessariamente feito de matéria positiva.
De qualquer forma, não sou mais do que um qualquer elemento da paisagem. Isto porque quem caminha por entre a multidão é arrastado por ela e raramente consegue parar para pensar. Os que param, ou têm um esgotamento, ou são internados num qualquer hospital psiquiátrico.
Mas eu caminho e quero salvá-los. Mesmo consciente do perigo que essa palavra acarreta. Mas salvá-los de quê? Bem, na verdade nem eu sei ao certo do quê. Todavia, sei que aquilo que me move se mostra tão verdadeiro a mim que tem que significar algo – ainda que pouco – para todos os outros.
De qualquer forma, não sou mais do que um qualquer elemento da paisagem. Isto porque quem caminha por entre a multidão é arrastado por ela e raramente consegue parar para pensar. Os que param, ou têm um esgotamento, ou são internados num qualquer hospital psiquiátrico.
Mas eu caminho e quero salvá-los. Mesmo consciente do perigo que essa palavra acarreta. Mas salvá-los de quê? Bem, na verdade nem eu sei ao certo do quê. Todavia, sei que aquilo que me move se mostra tão verdadeiro a mim que tem que significar algo – ainda que pouco – para todos os outros.
quarta-feira, 27 de outubro de 2004
Fim
Perdi a originalidade
algures no percurso tempestuoso
através dos vales do metro perfeito
e a língua soltou-se
em forma vazia
como se nada mais soubesse falar.
Disseram-me que era tão
pequena a minha poesia
que eu, na ânsia de escrever
a poesia que queriam de mim
adubei a terra dos meus versos
mas quando colhi o silêncio e o amor
já não era poeta.
algures no percurso tempestuoso
através dos vales do metro perfeito
e a língua soltou-se
em forma vazia
como se nada mais soubesse falar.
Disseram-me que era tão
pequena a minha poesia
que eu, na ânsia de escrever
a poesia que queriam de mim
adubei a terra dos meus versos
mas quando colhi o silêncio e o amor
já não era poeta.
terça-feira, 19 de outubro de 2004
Whispers
Sempre que um dia termina, as estrelas nascem e há luz. Muito mais luz do que de dia, ou do que em qualquer cidade do mundo. Porque a luz das estrelas distantes brilha mais do qualquer outra visão fantástica que possamos ter.
A luz que vem de tão longe é o próprio tempo a segredar-nos a vida, e a sua brevidade. A luz, quase tão velha como o tempo, percorre todo o universo, para que possamos saber o que é a palavra sonho, a chocar risonha contra a nossa retina.
A luz que vem de tão longe é o próprio tempo a segredar-nos a vida, e a sua brevidade. A luz, quase tão velha como o tempo, percorre todo o universo, para que possamos saber o que é a palavra sonho, a chocar risonha contra a nossa retina.
Diluição
Era a primeira vez que entrava naquele bar. Talvez por isso, quando caminhei em direcção ao balcão, tenha sentido tantos olhares a dirigirem-se a mim, analisando-me, temendo-me até. Claro que tal reacção não durou muito mais do que alguns segundos. A minha baixa estatura e o meu olhar cansado não metiam medo a ninguém, e, devido a isso, os presentes rapidamente se aperceberam de que não havia nada a temer.
Para dizer a verdade já nem sei o que pedi, porque bebi tudo isso como se de ar se tratasse. Dava golos, tentando diluir no álcool (ou naquela coisa que me ardia o estômago), o desespero. Alguns matulões aproximavam-se de mim e perguntavam-me, rindo, se estava bêbado. Eu olhava-os, e via milhões deles. Respondia-lhes que não sabia e que isso não me importava. Dizia-lhes que havia uma ânsia que inquietava, uma desilusão que me preenchia quando olhava o mundo, um sonho desfeito em nada quando me olhava no espelho do futuro. Chamavam-me louco e saíam, a rir, talvez com menos álcool no sangue, mas também com muito menos em que pensar.
Durante semanas aquele bar diluía-me a dor que surgia de dentro, como reacção ao que fora de mim havia. Todavia, cada noite em que chegava a casa e ficava três horas para acertar com a fechadura, e mais duas para conseguir rodá-la da forma certa, sentia-me mais vazio. Deitava-me a ver o mundo a espiralar, e sentia a minha ânsia muito mais diluída em todo o álcool que bebera. Mas logo vinha a dor física, e então era como se todo o álcool se evaporasse, e a ânsia que gritava em mim doesse tanto como a minha cabeça.
No que me tornei eu?
Para dizer a verdade já nem sei o que pedi, porque bebi tudo isso como se de ar se tratasse. Dava golos, tentando diluir no álcool (ou naquela coisa que me ardia o estômago), o desespero. Alguns matulões aproximavam-se de mim e perguntavam-me, rindo, se estava bêbado. Eu olhava-os, e via milhões deles. Respondia-lhes que não sabia e que isso não me importava. Dizia-lhes que havia uma ânsia que inquietava, uma desilusão que me preenchia quando olhava o mundo, um sonho desfeito em nada quando me olhava no espelho do futuro. Chamavam-me louco e saíam, a rir, talvez com menos álcool no sangue, mas também com muito menos em que pensar.
Durante semanas aquele bar diluía-me a dor que surgia de dentro, como reacção ao que fora de mim havia. Todavia, cada noite em que chegava a casa e ficava três horas para acertar com a fechadura, e mais duas para conseguir rodá-la da forma certa, sentia-me mais vazio. Deitava-me a ver o mundo a espiralar, e sentia a minha ânsia muito mais diluída em todo o álcool que bebera. Mas logo vinha a dor física, e então era como se todo o álcool se evaporasse, e a ânsia que gritava em mim doesse tanto como a minha cabeça.
No que me tornei eu?
segunda-feira, 11 de outubro de 2004
De noite
Agora a sério, onde foste a noite passada, que eu fiquei toda a noite acordado e não vi sequer a tua sombra em bicos de pés a atravessar o corredor?
domingo, 3 de outubro de 2004
Ruas desertas
Nas ruas desertas parece não haver a mesma poesia
que as contempla durante o dia. Não é que saiba
como são durante o dia – porque de dia o meu
ser dissipa-se como a escuridão – mas ainda assim,
agora que o silêncio perscruta a calçada suja, mesmo
que só eu caminhe, sinto rumores de milhares de
passos. E há vozes e pastas e corridas. Talvez
por isso me sinta tão bem na solidão de ser noite.
Ser dia é ser o desconcerto. É negar os sonhos.
É cair à voz da crítica. Porque só à noite é que
podemos escutar o universo, sem que a estrela da
morte interfira.
que as contempla durante o dia. Não é que saiba
como são durante o dia – porque de dia o meu
ser dissipa-se como a escuridão – mas ainda assim,
agora que o silêncio perscruta a calçada suja, mesmo
que só eu caminhe, sinto rumores de milhares de
passos. E há vozes e pastas e corridas. Talvez
por isso me sinta tão bem na solidão de ser noite.
Ser dia é ser o desconcerto. É negar os sonhos.
É cair à voz da crítica. Porque só à noite é que
podemos escutar o universo, sem que a estrela da
morte interfira.
quinta-feira, 19 de agosto de 2004
Verdes e Vermelhos
E se o abismo que nos separa
dos verdes troncos com folhas
se resumisse a uma só escolha
fruto da vontade de quem germinava ainda?
Duas células fotossintéticas
discutiam no lodo da vida.
Filósofas de exemplo, antípodas por natureza,
decidiram que a existência tinha de ser
bem mais do que lodo e sol.
E uma houve que escolheu a vida eterna
sonhando com o dia longínquo
em que havia de atingir a luz que no céu espelhava
mesmo sacrificando todas as sensações
que o mundo exterior lhe poderia conceder.
Contudo a outra,
qual Álvaro de Campos,
não se importou de tornar a sua vida curta,
se tal significasse a possibilidade de sentir
cada pedaço do mundo em si
- ainda que isso significasse
consumir todo o mundo.
Não, era impossível chegar ao sol.
E a vida eterna seria um tédio adiado.
A animal preferiu a sensação e o momento
criou a inteligência a partir da sensação
e voou mais alto.
A vegetal escolheu a vida e a eternidade
atingiu o equilíbrio da independência
e a eterna felicidade.
dos verdes troncos com folhas
se resumisse a uma só escolha
fruto da vontade de quem germinava ainda?
Duas células fotossintéticas
discutiam no lodo da vida.
Filósofas de exemplo, antípodas por natureza,
decidiram que a existência tinha de ser
bem mais do que lodo e sol.
E uma houve que escolheu a vida eterna
sonhando com o dia longínquo
em que havia de atingir a luz que no céu espelhava
mesmo sacrificando todas as sensações
que o mundo exterior lhe poderia conceder.
Contudo a outra,
qual Álvaro de Campos,
não se importou de tornar a sua vida curta,
se tal significasse a possibilidade de sentir
cada pedaço do mundo em si
- ainda que isso significasse
consumir todo o mundo.
Não, era impossível chegar ao sol.
E a vida eterna seria um tédio adiado.
A animal preferiu a sensação e o momento
criou a inteligência a partir da sensação
e voou mais alto.
A vegetal escolheu a vida e a eternidade
atingiu o equilíbrio da independência
e a eterna felicidade.
quarta-feira, 30 de junho de 2004
A Casa
Há anos que as letras partiram sem deixar qualquer rasto que pudesse seguir. A casa, outrora morada de sonhos e paixão, ficou totalmente vazia. Como se nunca tivesse sido habitada.
Entre quatro paredes fiquei apenas eu, ou o que de mim resta. Agora, a única melodia que perfaz o ar é o pesado respirar do meu desespero. Tudo o resto se desfez em pouco em fumo. Ainda assim, as memórias são felizes. E digo-o, porque sempre que as invoco todas as fragrâncias que me inspiravam os sentidos voltam a percorrer-me, ainda que de forma menos intensa.
Às vezes, na insónia da noite, relembro o fluir das palavras. Quando as minhas mãos tinham pedaços de magia e possuíam o dom da vida.
Depois, o amor secou e ficou só a lembrança de ser feliz. Por isso choro, mas faço-o não com o desespero de quem maldiz a vida, mas com a consciência da felicidade que pude abraçar – ainda que por breves instantes. Isto porque se choro, hoje, é porque tive razões para sorrir.
Triste daquele que nunca chorou, porque nunca soube qual o sabor de um sorriso.
Entre quatro paredes fiquei apenas eu, ou o que de mim resta. Agora, a única melodia que perfaz o ar é o pesado respirar do meu desespero. Tudo o resto se desfez em pouco em fumo. Ainda assim, as memórias são felizes. E digo-o, porque sempre que as invoco todas as fragrâncias que me inspiravam os sentidos voltam a percorrer-me, ainda que de forma menos intensa.
Às vezes, na insónia da noite, relembro o fluir das palavras. Quando as minhas mãos tinham pedaços de magia e possuíam o dom da vida.
Depois, o amor secou e ficou só a lembrança de ser feliz. Por isso choro, mas faço-o não com o desespero de quem maldiz a vida, mas com a consciência da felicidade que pude abraçar – ainda que por breves instantes. Isto porque se choro, hoje, é porque tive razões para sorrir.
Triste daquele que nunca chorou, porque nunca soube qual o sabor de um sorriso.
sábado, 19 de junho de 2004
quinta-feira, 27 de maio de 2004
Respostas
Às vezes a explicação para o mais fantástico dos eventos reside num fenómeno exterior à realidade, tal como um som exterior interfere num sonho.
A questão é: como é que fazemos para acordar deste mundo?
A questão é: como é que fazemos para acordar deste mundo?
A árvore da poesia
Gastaram-se as palavras para te definir
(a árvore da poesia secou)
talvez até restem alguns frutos
que heroicamente tenham sobrevivido
à queda de ramos que já não existem
porém já nem importam as sementes
(a árvore da poesia secou)
mesmo que uma outra germinasse
de restos de palavras
já não seria poesia.
Seria talvez a natureza
ou o céu - até o luar -
mas não, nunca a poesia,
essa morreu
partiu
secou
jamais voltará.
Gastaram-se as palavras para te definir
e por isso o silêncio
por isso o céu gelado e a noite eterna.
Gastaram-se as palavras para te descrever
e ainda assim
continuas a ser
um fogo de estrelas e de mar.
(a árvore da poesia secou)
talvez até restem alguns frutos
que heroicamente tenham sobrevivido
à queda de ramos que já não existem
porém já nem importam as sementes
(a árvore da poesia secou)
mesmo que uma outra germinasse
de restos de palavras
já não seria poesia.
Seria talvez a natureza
ou o céu - até o luar -
mas não, nunca a poesia,
essa morreu
partiu
secou
jamais voltará.
Gastaram-se as palavras para te definir
e por isso o silêncio
por isso o céu gelado e a noite eterna.
Gastaram-se as palavras para te descrever
e ainda assim
continuas a ser
um fogo de estrelas e de mar.
quarta-feira, 19 de maio de 2004
vida
a vida esgota-se a cada instante
rodopia dançando ao sabor
da ilusão do tempo
e escorre por entre os dedos
sempre que a tentamos agarrar
rodopia dançando ao sabor
da ilusão do tempo
e escorre por entre os dedos
sempre que a tentamos agarrar
Eucariontes
Um dia houve
longínquo tempo esse
em que dois pedaços do mesmo ser
decidiram caminhos diferentes seguir.
Enfim, partir.
E houve um que seguiu
a procura individual do ser
mesmo sabendo que tal ambição
o condenaria quase certamente
à eterna solidão.
O outro, pelo contrário
escolheu a vida em conjunto
num só.
Disse milhões de vidas em mim
e nesse instante não soube
que tais palavras significariam
a perda de identidade.
E assim, de duas vontades
se fizeram dois ramos da mesma árvore
proca e euca, chamam-lhes
às duas faces da mesma vida.
longínquo tempo esse
em que dois pedaços do mesmo ser
decidiram caminhos diferentes seguir.
Enfim, partir.
E houve um que seguiu
a procura individual do ser
mesmo sabendo que tal ambição
o condenaria quase certamente
à eterna solidão.
O outro, pelo contrário
escolheu a vida em conjunto
num só.
Disse milhões de vidas em mim
e nesse instante não soube
que tais palavras significariam
a perda de identidade.
E assim, de duas vontades
se fizeram dois ramos da mesma árvore
proca e euca, chamam-lhes
às duas faces da mesma vida.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
Heterociencioteoria
O cientista é um especulador.
Especula tão completamente
Que chega a fingir que é esplendor
A verdade que nunca lhe navega a mente.
E os que estudam o que postula e teoriza,
Nas válidas teorias crêem bem,
Mas não há verdade completa, precisa,
Tão-pouco que eternamente se mantém.
E assim nas calhas de fórmulas e leis
Deduz, na ânsia de entreter a razão
Desfolhando a enciclopédia de cientistas-Reis
Que aceleradamente nos conduz à destruição.
Especula tão completamente
Que chega a fingir que é esplendor
A verdade que nunca lhe navega a mente.
E os que estudam o que postula e teoriza,
Nas válidas teorias crêem bem,
Mas não há verdade completa, precisa,
Tão-pouco que eternamente se mantém.
E assim nas calhas de fórmulas e leis
Deduz, na ânsia de entreter a razão
Desfolhando a enciclopédia de cientistas-Reis
Que aceleradamente nos conduz à destruição.
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