terça-feira, 20 de julho de 2010

Sentido

Passamos vidas inteiras à procura dele. Ou pelo menos de uma das suas facetas. Nem que seja apenas um sinal da sua presença. Sentido. E sem ele sentimo-nos perdidos. Sem rumo. Como se o mundo girasse cada vez mais rápido e nos deixasse para trás. Outras vezes, porém, temos quase a certeza de que estamos perto. Muito perto. Como se conseguissemos identificar as suas pegadas e soubessemos imediatamente que foi há muito pouco tempo que elas foram dadas. Como se quase o conseguissemos agarrar, como se o seu perfume, a sua voz, a sua presença estivessem mesmo ali, ao nosso alcance.

Outras vezes - embora cada vez mais raramente - paramos para pensar. Talvez à beira-mar. Ou no meio de um campo alentejano (ok, não tem que ser alentejano, nem tem que ser campo, mas tem que ser como um campo alentejano). Às vezes somos capazes de ouvir o silêncio e de nele escutarmos apenas o que se pode escutar no silêncio: o silêncio, e a vida que em nós corre. E é talvez aí - nesses momentos cada vez mais raros (até porque, diga-se, quem é que "tem tempo [ou quem é que é capaz de parar para viver um pouco, em vez de se queixar a toda a hora e não fazer mais do que sobreviver]"?) - que somos capazes de conceber uma vida bem mais simples. Uma existência em que se vive num bem-estar com o mundo e com os outros. Num mundo em que não é preciso ser-se mais forte, mais atraente, mais rico, mais poderoso, mais desejado, ou mais talentoso. Num mundo em que não é preciso haver um alvo, um objectivo. Num mundo em que, no fim de contas, o sentido não se procura - cria-se.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O sabor amargo das vitórias

Chamo-me Luís, e sempre que chegava em primeiro ficava de rastos. Como se o mundo inteiro me tivesse passado por cima e tudo o que restasse de mim fosse uma fina tira horizontal de carne desfeita. Cada vitória era uma ferida que nunca sarava.

Na verdade, foi ainda em pequeno que aprendi o sabor amargo do sucesso. Por sorte – diziam os meus pais – parecia ter nascido para ser um vencedor. Obrigavam-me a participar em tudo o que eram provas desportivas e – segundo eles – safava-me sempre bem. Tão bem que cheguei a ter uma parede inteira cheia de medalhas minhas, pedaços de metal que os meus pais mostravam com orgulho a todos os vizinhos que nos visitavam. Por outro lado, na escola as coisas corriam igualmente bem, ou até melhor, e choviam bolsas de estudo e prémios de quase todos os cantos.

Contudo, por cada medalha que me colocavam ao pescoço e por cada prémio que vencia, havia um sabor amargo que se tornava cada vez mais difícil de ignorar. Como se cada gota de suor que me corria pelo corpo me esfaqueasse numa violência cada vez mais intensa e essa dor crescesse continuamente em mim. E essa tortura, descobri então, provinha das faces de desilusão dos meus colegas, das suas expressões de ódio para comigo e dos olhares baixos e vencidos que tinham por causa os meus triunfos.

Desta forma, o tempo era para mim o pior inimigo. Porque trazia sempre mais olhares que desesperavam por não terem conseguido o lugar que me fora atribuído, ou a medalha que eu vencera. Por isso, um dia tomei uma decisão. Ergui-me pela manhã e decidi que havia de abandonar tudo. De que me servia o sucesso se não conseguia viver com as desilusões que a minha existência causava? De que serviam as vitórias, se a felicidade que me davam era feita de lágrimas e sofrimento?

Na noite do dia em que decidi mudar a minha vida, disse aos meus pais que nunca mais queria competir com ninguém. Disse-lhes que as vitórias me custavam demasiado e que preferia ser um perdedor para toda a vida. Nessa noite que nunca esquecerei, o meu pai, frustrado com os assuntos do trabalho, chamou-me de vergonha da família e disse-me que se fizesse isso deixaria de ser seu filho, porque estaria a desprezar tudo aquilo que conseguira com a sua ajuda. Eu olhei-o e disse-lhe que a vida se faz numa escolha e que essa é de cada um de nós e saí, sem que o deixasse ver que na minha face se esboçavam pequenas lágrimas de incerteza que só o tempo poderia secar.

Hoje, ainda que muita água tenha corrido pelo rio do tempo, sei que os meus pais continuam a não perceber por que razão me vi forçado a desistir de um caminho tão seguro. Porque eles, como quase toda a gente no mundo, esquecem-se que por cada vencedor há um derrotado, e que sempre que alguém chega mais alto, há um outro que fica pelo caminho. Por isso me custava tanto cortar a meta em primeiro, e por isso o aroma amargo que cada vitória me deixava na consciência. Porque sabia que atrás de mim ficava alguém cheio de sonhos que por minha causa se haviam desfeito na espuma da desilusão.

Agora, ao sabor do sol desta tarde de Verão, sei que finalmente ocupo o meu lugar no cosmos, porque não sou absolutamente ninguém para todas as pessoas que por mim passam. Talvez me chamem vagabundo. Talvez até me desprezem. Mas a verdade é que não há melhor situação do que a de um sem-abrigo para poder devolver a tantas pessoas os sonhos que um dia se perderam delas, ainda que tal tarefa se apresente muitas vezes como algo extraordinariamente difícil.

Agora, tantos anos depois, a vida começa finalmente a fazer sentido. E, pela primeira vez desde há muito, sinto-me verdadeiramente parte deste mundo imperfeito e sou feliz, porque vivo para a vitória de todos aqueles que sonham verdadeiramente com ela e sei que não estou só.

Doce é a medalha a que se renuncia por livre vontade.

As melhores histórias

As melhores histórias são aquelas que nascem sem destino, sem propósito. Esqueçam as histórias planeadas, encomendadas, esquematizadas. Essas podem ser aceitáveis, até boas, mas nunca serão as melhores. E as melhores histórias são também aquelas que não precisam que se diga que são as melhores -- são-no e pronto. Não há que “educar” o gosto, ou “aprender” a apreciar este ou aquele estilo - isso só se aplica às histórias mais-ou-menos, ou a tantos textos que de tão concentrados neles próprios nem sequer contam uma história. E as histórias são importantes. O conteúdo é importante. Porque sem conteúdo - e mesmo que em nome da arte - o texto perde humanidade, perde alma, perde vida; por mais que ganhe em “inovação”, ou discutível estética. Mais do que isso: os textos sem história são como pessoas que, de tão “profundas” e “intelectuais”, acabam por se tornar ou completamente inacessíveis.

Diário de uma Guinsberguiana

Guinsberg, ano 503, mês 4, dia 20

Ainda não compreendi muito bem por que razão decidi começar a escrever. Talvez devesse recorrer à unidade de cuidados mentais do computador central, contando-lhe as estranhas sensações que tenho tido, ou talvez o melhor fosse mesmo dirigir-me ao hospital de normalização, já ali ao lado. Estou certa de que qualquer uma das anteriores opções desembocaria na solução optimizada para o que sinto. Ficaria mais calma, segura de mim – poderia até voltar a olhar o mundo inteiro num sentimento de perfeição, como sempre o fiz. Mas não. Por incrível que pareça, e pela primeira vez na minha vida, acho que estou a agir contra os princípios fundamentais que tanto prezo, respeito e adoro. E talvez seja por isso que sinto uma vontade tão imensa de desabafar, de expor os meus problemas sem que me normalizem de imediato, ou me critiquem cruelmente.

Assim, aqui estou eu, Qu-4579-Al, a planar magneticamente no meu quarto e a operar sobre o meu computador quântico utilizando apenas o pensamento. Penso em ideias e palavras, e a projecção holográfica diante de mim mostra-me conjuntos de símbolos que interpreto como letras. Algo verdadeiramente ridículo. Mas nem por isso cesso de escrever. Porque no fundo de mim há algo que me fala com a voz de quem passou toda uma vida encerrado num calabouço. Há algo que deseja despertar-me. E eu cedo e deixo-me levar por este corrupio de ideias totalmente ilegais – pelo menos até o computador central de Guinsberg enviar o sinal diário para que todos iniciem as suas tarefas produtivas. Até lá são menos de duas mil batidas de coração.

Se a perfeição existe, então a sua concretização chama-se Guinsberg, a maior e mais bela cidade da galáxia Fitacita, o local onde nasci e onde resido. Onde me posso realizar totalmente trabalhando para o bem comum e sabendo que todos os sistemas trabalham o mais afincadamente possível para me manter sempre a 100%. Em Guinsberg, nada foi feito ao acaso. Embora erguida sobre um imenso pântano, há mais de 500 anos, a cidade mantém-se totalmente inalterável e na vanguarda citadina no que diz respeito às 4 galáxias plenamente colonizadas. Aqui não existe microorganismo algum que possa pôr em risco a saúde dos 250 mil milhões de habitantes que nela residem. Não só porque todos os Guinsberguianos têm direito a mais de 1 milhão de nanorobôs na sua circulação sanguínea, mas também por esses estarem em permanente contacto com a maior base de dados alguma vez concebida: o computador central de Guinsberg.

Existem tantas razões para se viver aqui que todos os dias os computadores fronteiriços da Cidade se enchem de milhões de candidaturas. Vêm maioritariamente de sistemas solares da galáxia, mas muitos – extra-galácticos – chegam a mostrar-se dispostos e percorrer todo o meio intergaláctico para se mudarem para a Cidade. Todavia, o perfeito funcionamento da cidade condiciona totalmente as novas admissões, e, nos meus 22 anos de existência, foram menos de mil aqueles que conseguiram a tão desejada cidadania Guinsberguiana.

Na verdade, o principal entrave à entrada de estrangeiros é o próprio sistema político vigente na cidade, que, pelo que sei, é único em todo o Universo. O seu ideólogo, Gh-58096-00, chamou-lhe iqualitismo-produtivismo e, desde então, não há ninguém que duvide de que ele é a concretização de uma utopia com que a minha espécie sempre sonhou. Sobretudo porque em Guinsberg não há qualquer necessidade de eleições – muito menos de políticos. Assim, a gestão de toda a cidade está a cargo do computador central, que a todo o instante inquere as milhares de milhões de mentes em Guinsberg e toma as decisões tendo em vista todas as opiniões. Por isso, só Guinsberg vive num clima verdadeiramente democrático, onde os cidadãos não precisam de fantoches intermediários para defender as suas posições, ou opiniões.

De súbito, sinto o sinal telepático do computador central a percorrer-me a mente e a fazer-me sentir uma enorme vontade de sair deste meu quarto. Por isso, desligo todo o equipamento com que escrevo, da forma mais rotineira possível, com vista a mostrar que não estive a fazer nada de ilegal e calo todos os meus pensamentos até que regresse do trabalho.

Visões de Um Outro Mundo: Cap1.2

“O fim depende sempre do início”, escreveu um pequeno extraterrestre no meu sonho, sorrindo e fitando-me, como se eu fosse o único alvo da sua afirmação em português correcto. Depois interroguei-me “mas como pode um E.T. escrever tão bem português?”, e o meu cérebro, forçado a pensar, despertou-me rapidamente. Desta forma, quando acordei, eram apenas as três dimensões da sala que me rodeavam.

Talvez seja estúpido iniciar assim o meu primeiro esboço de arte literária, mas de um amador como eu não se pode esperar muito mais. E também é verdade que a afirmação do E.T., escrita a branco sobre o negro do xisto, se agarrou tão afincadamente à minha memória que, uma semana depois do sonho, ainda a recordo como se estivesse diante dela. Por isso não consegui deixar de a referir, sabendo, contudo, que se começasse a escrever daqui a um mês, o resultado seria totalmente diferente. Paciência: fica para um outro eu.

Todavia, o facto de citar um extraterrestre atrevido não me faz escapar à constatação de que não faço a mínima ideia do que tudo isto vai tratar.

Há pouco tempo lembro-me de caminhar pela Rua Augusta e de ver na montra de uma rua paralela o livro “O Início de um Livro é Precioso”. Bem, não sei se era mesmo esse o título, mas pouco importa. Também não me recordo do autor ou autora (sou péssimo para nomes). Lembro-me, isso sim, de entrar nessa livraria, cheio de esperança de que nessas páginas estivesse a resposta à minha inquietação (quem sabe, poderia dizer-me como é que se começa um conto). Contudo, bastou-me ler algumas linhas para o meu interesse cair imediatamente para zero e, daí a um tempo de Planck (não sei se nos contos se pode esclarecer alguns leitores, mas, de qualquer forma, não hesito em explicar que o tempo de Planck, para quem não sabe, é um tempo mesmo muito, muito, muito pequeno), fiquei completamente desmotivado para o seu conteúdo.

Hoje, inicio este conjunto de palavras por escrever, e a preocupação pelo princípio parece desvanecer-se, por cada letra que pinto no papel. Sinto-me solto, até. Como se durante toda a minha vida tivesse escrito abundantemente. Por isso decido deixar-me levar pela vontade do sistema mão-caneta-mente, libertando-me de todas as preocupações – relegando-as para os críticos literários (que, como é óbvio, nunca lerão estas palavras, a não ser que gostem de perder tempo, ou então para mostrarem a autores em ascensão o tipo de texto que não devem escrever).

Parece-me a mim que, na maior parte dos contos, a personagem principal é apresentada logo nas primeiras linhas. O problema é que o meu conto ainda não tem qualquer personagem… É só palha. Mas também tem muitas letras, uma caneta amarela que parece mágica, e um físico que nem sequer é físico a armar-se em escritor. Sim, a combinação não é brilhante, mas é o que se pode arranjar.

Bem, acho que está na hora de inventar uma pessoa qualquer. Caso contrário, até eu perderei o interesse por estas páginas em branco, e nem mesmo tu – caneta amarela – conseguirás motivar-me.

Então aqui vai: olá, eu sou a Manuela, tenho 34 anos, e sou a nova personagem deste conto. Ainda não sei onde moro, porque o parvo do escritor não me deu nenhuma casa, mas no futuro gostava de dar paz ao mundo inteiro, mesmo sabendo que o mundo inteiro é só um monte de palavras ocas sem sentido. Para quem quiser votar em mim, é só ligar para o 444555322. Não posso dizer já o custo da chamada, porque o chato que me escreve ainda não sabe e não ficava bem estar a…

Agora a sério: apresento-vos Johanne Ribeiro, a verdadeira heroína desta história (ainda) sem argumento. Mas não pensem que é uma personagem qualquer. Johanne é bem diferente de todas as outras. Melhor, muito melhor. E alerto-vos já para o facto de ser uma verdadeira deusa do século XXI, daquelas que subjuga Afrodite com um simples sorriso. Ah, e morena. Sim, porque Johanne, acima de tudo, é extremamente inteligente. E mais: é estudante de doutoramento no Caltech. Para trás ficou um percurso brilhante em todos os graus académicos.

Para os interessados, ela encontra-se, de momento, livre. Teve uma relação de dois anos com um colega de curso, mas facilmente se fartou das suas paranóias, quando, nos três meses finais, passaram a viver juntos. Agora baixinho, para que não nos oiça: Johanne tem um carácter um pouco, digamos… difícil. Embora extremamente amável e amiga de todos, sofre de um certo… “síndrome de independência”. Quer isto dizer que necessita do seu próprio espaço, e precisa, sem dúvida, de se sentir rodeada por coisas que lhe digam algo. Escusado será dizer que os garanhões californianos já desistiram dela há muito. Não por ter deixado de ser apetecível, mas por ela ser, no dizer de Mr. Camarinha, “um caso particular das mulheres difíceis: uma impossível”. Claro que, no início, esse facto era um estímulo adicional à conquista de Johanne, por parte de todo o tipo de engatatões, com idades compreendidas entre os 16 e os 56. Contudo, as sucessivas derrotas fizeram a grande comunidade Camarinhae concluir, em assembleia-geral extraordinária, que Johanne ou dava para o outro lado, ou então tinha sexo matemático. Talvez por isso todos afirmem, agora, que ela não é tão espectacular quanto os seus olhos vêem – mas a verdade é que à noite todos sonham com ela.

É realmente estranho criar uma pessoa assim, de um instante para o outro. Todavia, é ainda mais impressionante a sensação que essa vida provoca em mim. Como se caminhasse para a independência. Quase como se, daqui a instantes, eu não fosse mais do que um observador da vida de Johanne Ribeiro.

Ah, mas falta ainda esclarecer esse maravilhoso apelido luso, herdado de seu pai, José Ribeiro, um português que emigrou para os Estados Unidos aos 18 anos em busca de uma fortuna “desmesuradamente grande”, como um dia referiu. Todavia, as suas expectativas saíram furadas, e José não chegou sequer à pequenina unha do pé de Bill Gates. Mas nem por isso deixa de se considerar o homem mais rico do mundo, e isto desde que Johanne nasceu, no dia 4 de Fevereiro de 1982.

E claro que a forte ligação entre José e Johanne implica muitas conversas na língua lusitana. Por isso, o português é uma das languages que a nossa heroína carrega no seu currículo, invejado por muitos jovens norte-americanos. E a verdade é que Johanne fala-o soberbamente – muito melhor do que alguns paspalhos que às vezes vão à televisão armar-se em espertos.

Por outro lado, o facto de falar tão bem a língua lusitana facilita-me bastante a vida. Isto porque, nos últimos pormenores, foi como se ela me tivesse ditado as frases e eu me limitasse a escrever tudo aquilo que ela queria.

Ouço o telemóvel e salto de susto, como se despertasse de um sonho abruptamente. Mas, no fim de contas, não é nada de especial. É apenas o meu professor de física de partículas a pedir-me para lhe entregar aquele trabalho que terminei há uma semana e que me tenho esquecido de lhe levar, consecutivamente. Claro que esse constante esquecimento seria motivo de teses de doutoramento para inúmeros psicólogos e psiquiatras, sobretudo se lhes falasse da minha estranha relação com a amarela. De qualquer maneira, a explicação para todas as peculiares sensações que agora me afectam torna-se auto-evidente quando olho para o relógio e leio “1:01”. E, de súbito, lembro-me que amanhã tenho aula de mecânica quântica pelas 9 da manhã. O mais estranho é que nem isso me dilui a excitação para a escrita. O facto de ver Johanne à minha frente, a sorrir-me, parece ser mais forte do que o mecanismo orgânico que descarrega hormonas a dizerem “vai dormir, já!”. Mas o melhor talvez seja mesmo ir para a cama. Amanhã estarei mais sóbrio e então poderei continuar este monte de lixo literário.

Depois, já na cama, pareço ouvir Johanne a dizer “boa noite”, a dizer “sleep well, sweet dreams”. Acho que preciso mesmo de descansar, sobretudo porque logo pela manhã a teoria quântica vai puxar ao máximo por todos os meus neurónios.

Até amanhã, Johanne.


Whispers

Há um silêncio lá fora que grita palavras. E as palavras são fantasmas, impacientes para ocuparem um corpo que as abrace numa história. Ali fora é noite, mas bem que podia ser manhã. Afinal, qual é a diferença, senão nos números que podemos ver no relógio? Não há quase ninguém nas ruas, é o que importa, e até a brisa parece ter ido dormir. Talvez por isso, na ausência da luz e vida lá fora, a voz das palavras se ouça melhor agora. Como se estivessem a sussurrar directamente ao ouvido.